LUÍSA COSTA GOMES

 

DIÁRIO DE UM CERTO MÊS DE JANEIRO

Um certo mês de Janeiro trouxe um bebé, uma casa nova, uma linda criança a dizer: “Avó, depressa, tira a fotografia senão ele chora!”. Trouxe um livro novo e um novo texto em cena no teatro, um dos grandes clássicos desconhecidos, misterioso, obscuro, imorredoiro, extravagante, sublime. Um mês de Janeiro frio chuvoso ventoso adjectivoso, mas gerando substantivo um jardim de gigantes suculentas e uma fénix renascida: limões que são perfeitos indivíduos. Um auto-retrato doméstico-satírico, e mares que dão frio e revigoram só de olhar. Uma cadeira onde eu um dia já não hei-de estar, ficando de mim só aquelas flores realçadas; se ficar isso já não é nada mau, a ideia de que passei um certo mês de Janeiro a retocar as flores e a reacender as frutas do quintal. Que mais? Foi um mês polaroid, que trazia também as lições da realidade minimesca que a máquina me dava e a consequente sublimação na pintura (a aguarela!!), exaltação da realidade aumentada. Lutando contra a decepção, eu pintava o que queria. Entre o menos e o mais da imitação, de vez em quando, numa tarde de domingo, uma chapa que enfim recompensava, valia a pena. Um fio de luz visível sobre o cedro, resultado de uma química de capricho, incompreensível, ou um jogo de linhas engraçado na mangueira que brinca ao fantasma da cobra. E quadrados e quadriculados, naturais, encenados, retocados, pintados. Graus de intervenção que provêm do melhor que há, o prazer e o capricho. Em negativo, à volta destas imagens, esvoaçando, estão as belezas todas que ficaram por captar, a sombra do gesto de levar a câmara aos olhos e concluir que não se estava à altura do momento. Nem eu, nem ela, houve em nós, mulher e máquina, esse pudor, esse limite. O que ficou, o diário, põe-se na parede um par de meses. Aí está ele, um certo mês de Janeiro, agora partilhado.

 

 

DIARY OF A CERTAIN MONTH OF JANUARY

One month in January she brought a baby, a new house, a beautiful child saying: “Grandmother, hurry, take the picture or he will cry!”. She brought a new book and a new text to the theater stage, one of the great unknown classics, mysterious, obscure, undying, extravagant, sublime. A month of January cold rainy windy adjective, but noun generating a garden of succulent giants and a reborn phoenix: lemons that are perfect individuals. A domestic-satirical self-portrait, and seas that chill and invigorate just by looking at it. A chair where one day I will no longer be, leaving only those highlighted flowers; if it stays that’s not bad at all, the idea that I spent a certain month of January touching up the flowers and rekindling the fruits in the backyard. What else? It was a polaroid month, which also brought the lessons of mini- reality that the machine gave me and the consequent sublimation in painting (watercolor!!), exaltation of augmented reality. Fighting disappointment, I painted what I wanted. Between the minus and the plus of imitation, every now and then, on a Sunday afternoon, a plate that finally paid off, it was worth it. A thread of light visible on the cedar, the result of a whimsical, incomprehensible chemistry, or a funny play of lines on the hose that plays like the ghost of the snake. And squares and grids, natural, staged, retouched, painted. Degrees of intervention that come from the best there is, pleasure and whim. In negative, around these images, fluttering, are all the beauties that remained to be captured, the shadow of the gesture of bringing the camera to your eyes and concluding that you were not up to the moment. Neither I nor her, there was in us, woman and machine, that modesty, that limit. What remains, the diary, hangs on the wall for a couple of months. There it is, a certain month of January, now shared.

 

























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