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WHAT DOES YOUR REVOLUTION LOOK LIKE?

Imperfect images

When I travel, I like to take notes. Notes written or dictated to the cell phone recorder, or still image recordings, which are not exactly photographs, but simple “snapshots”, in the literal sense of the term. In all cases, it is a question of bringing home pieces of the world, like someone bringing shells from the beach, in a greedy impulse to take possession of my own experience. They are fragments of chance, rags, loose pieces, incomplete sentences, out-of-focus, off-centered figures, poorly lit, without framing. Lightning flashes from my gaze, from my emotional and imperfect gaze. The work of memory is to choose, condense, seal, close reality in a mental museum. I prefer to keep everything open, for explaining. Leave the interpretations halfway through, the adventure unfinished. I don't photograph to remember later, but to later reflect and write about living material, lava that doesn't cool down, opening up the possibility of an infinite journey. These notes in photographic form are therefore anti-memories. Its nature is not artistic and its function is strictly personal and pragmatic: to prevent the trip from becoming a memory, keeping it as a permanent source of dreams and utopia.

Paulo Moura

 

Imagens imperfeitas

Quando viajo, gosto de tomar notas. Notas escritas ou ditadas para o gravador do telemóvel, ou ainda registos de imagem, que não são propriamente fotografias, mas simples “instantâneos”, no sentido literal do termo.
Em todos os casos, trata-se de trazer para casa pedaços de mundo, como quem traz conchas da praia, num impulso sôfrego de tomar posse da minha própria experiência.
São fragmentos de acaso, farrapos, peças soltas, frases incompletas, figuras desfocadas, descentradas, mal iluminadas, sem enquadramento. Relâmpagos do olhar, do meu olhar emocionado e imperfeito.
O trabalho da memória é escolher, condensar, selar, fechar a realidade num museu mental.
Eu prefiro manter tudo em aberto, por explicar. Deixar as interpretações a meio, a aventura inacabada.
Não fotografo para mais tarde recordar, mas para mais tarde reflectir e escrever sobre material vivo, lava que não arrefece, abrindo a possibilidade de uma viagem infinita.
Estas notas em forma fotográfica são portanto antimemórias. A sua natureza não é artística e a sua função é estritamente pessoal e pragmática: impedir que a viagem se transforme em recordação, mantendo-a como permanente motivo de sonho e de utopia.

Paulo Moura